Estou esperando ser atendida pelo médico. No exato momento lia ”Crônica de um amor louco” de Bukowski. Veio de um jeito tão insano aquele cheiro que me consumiu a alma, praticamente desmaei.
Fiquei procurando de onde vinha aquele cheiro insuportável que agora vinha de tempos em tempos, conforme o vento abafado da tarde. Claro que não fiquei andando de um lado pro outro, eu estava em um local público, tinha que ser discreta e minuciosa pra não parecer que o fedô era meu, então fiquei olhando em volta e pensando o que
Era antigo. O prédio era antigo, por tanto só poderia ser a encanação…o ralo! Não tinha dúvidas de que era ele, só poderia ser!
Na hra me senti…indiferente. “Tanto faz ser o ralo ou o pum de uma pessoa qualquer. Foda-se o cheiro do ralo!”, pensei. Mas passado um tempo, aquilo foi ficando insuportável.
Passados alguns minutos comecei a dar aquela risadinha de canto de boca, é que finalmente me lembrei: “O cheiro do ralo”…. Um filme que tinha visto fazia pouco tempo, e que me comoveu realmente. O engraçado era que eu estava fazendo a mesma coisa que “Lourenço”, queria lutar contra aquele cheiro, queria cimentar aquele merda de ralo! Mas eu já sabia no que ia dar isso…
No que deu? Bem, pra quem não leu o livro ou não viu o filme, lá vai: ele nadou na merda literamente!
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Precisei de um dez minutos pra aquele cheiro sair de mim, sair do meu corpo, mente e coração. Aquilo estava me corroendo. Foi aí que fui finalmente chamada pra ser “analisada” pelo médico.
Quando me levantei fechei a porta do banheiro, uma pessoa me olhou e eu disse ”tava um fedô aqui né, é o ralo”. Olhei bem em qual conto tinha parado do livro, era “A máquina de foder”. Fechei o livro.
Foi só nesse momento que consegui nomear aquele cheiro. Sem dúvida nehuma era o da hipocrisia e coisificação.
E você, qual é o cheiro do seu ralo? Hãn?

