loucos

Tuesday, April 12, 2011

O Cheiro do Meu Ralo


Estou esperando ser atendida pelo médico. No exato momento lia ”Crônica de um amor louco” de Bukowski. Veio de um jeito tão insano aquele cheiro que me consumiu a alma, praticamente desmaei.
Fiquei procurando de onde vinha aquele cheiro insuportável que agora vinha de tempos em tempos, conforme o vento abafado da tarde. Claro que não fiquei andando de um lado pro outro, eu estava em um local público, tinha que ser discreta e minuciosa pra não parecer que o fedô era meu, então fiquei olhando em volta e pensando o que 

poderia produzir aquele fedô. Descobri o que era quando olhei para o banheiro.
Era antigo. O prédio era antigo, por tanto só poderia ser a encanação…o ralo! Não tinha dúvidas de que era ele, só poderia ser!
Na hra me senti…indiferente. “Tanto faz ser o ralo ou o pum de uma pessoa qualquer. Foda-se o cheiro do ralo!”, pensei. Mas passado um tempo, aquilo foi ficando insuportável.
Passados alguns minutos comecei a dar aquela risadinha de canto de boca, é que finalmente me lembrei: “O cheiro do ralo”…. Um filme que tinha visto fazia pouco tempo, e que me comoveu realmente. O engraçado era que eu estava fazendo a mesma coisa que “Lourenço”, queria lutar contra aquele cheiro, queria cimentar aquele merda de ralo! Mas eu já sabia no que ia dar isso…
No que deu? Bem, pra quem não leu o livro ou não viu o filme, lá vai: ele nadou na merda literamente!
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Precisei de um dez minutos pra aquele cheiro sair de mim, sair do meu corpo, mente e coração. Aquilo estava me corroendo. Foi aí que fui finalmente chamada pra ser “analisada” pelo médico.
Quando me levantei fechei a porta do banheiro, uma pessoa me olhou e eu disse ”tava um fedô aqui né, é o ralo”. Olhei bem em qual conto tinha parado do livro, era “A máquina de foder”. Fechei o livro.
Foi só nesse momento que consegui nomear aquele cheiro. Sem dúvida nehuma era o da hipocrisia e coisificação.
E você, qual é o cheiro do seu ralo? Hãn?

Tango Argentino

Já o tinha visto em outras ocasiões, mas hoje em especial ele não estava ali.Então sem querer tive que sair correndo deixando algumas moedas ainda no meu bolso.Não gostava das moedas, elas me irritavam com seu barulho.

No outro dia, quando dei por mim, já tinha passado do local onde ele ficava.Não tinha percebido e me senti muito mal, como se estivesse fazendo algo errado.

Depois de alguns dias nem me lembrava mais dele.Talvez pelo trabalho?A pressa?O egoísmo?Não, não.Não eu, que isso!Eu que sempre dei as moedas pra ele, sempre falava "oi", sempre dava o dinheiro pro seu "pingado quente"...Não mesmo.

Anos se passaram.Já tinha saido da cidade a um bom tempo.Nada mudou, a não ser pelo fato de na cafeteria ter um senhor que me chamou e disse algo que não lembro direito, mas era da época da minha infância.

No dia seguinte, fui a mesma cafeteria.O cara, o papo, o sopapo já não estava lá, o que restava era apenas um papelão.Perguntei o que havia com o senhor que ficava ali, a moça sutilmente me deu a resposta.Disse que ele tinha ido, já era tarde pra restaurar o que tinha feito.Não entendi.Também, nunca o tinha visto antes.

Passou algum tempo, me veio a cabeça o que ele tinha me dito: "A única coisa a fazer é tocar um tango argentino".Sim, eu agora lembrava quem ele realmente era, mas era tarde demais.Tarde pra dar as moedas a ele.Mas não a outro que ocuparia o seu "cargo".Ele é agora Homem de pedra, de pó.
Mas ainda da tempo, tempo de não acomodar com o que incomoda.

"Se quer saber, deixa estar"

Bem, estamos eu e meu primo conversando sobre a sua faculdade de medicina na UFG. Ele, sempre tímido, me surpreendeu quando ficou revoltado ao perceber que ele após uma aula de anatomia, de ver uma pessoa ensanguentada, comia sem problema algum, alí do lado mesmo. Um almoço, uma cochinha...o que fosse.Tinha que se alimentar, não é mesmo?!
Disse ainda que nos primeiros dias olhava as carnes e via que pareciam com aqueles corpos que tinha acabado de manusear. Mas não tinha nada o que ele podia fazer, era aquilo que tinha decidido fazer da vida, e a cada escolha que fazemos na vida, sempre sofreremos com as consequências.
Pra mim ele não está errado, aliás, podemos generalizar isso. Olhe só para você, com o que se acostumou devido ao seu trabalho, ou até mesmo amigos? Muitas coisas não é mesmo? Acho ainda que esse comodismo é o tal do "mal necessário". Pense como seria sem ele...
Por outro lado, deixamos muitas vezes de sermos nós mesmos por conta da necessidade que temos de sempre responder as expectativas das outras pessoas, nos acomodando e aceitando coisas que para nós são, no paradoxo, inaceitáveis.
Um amigo meu disse certa vez que tinha orgulho das crianças e adolescentes, não pela pureza ou ingenuidade, mas pela capacidade que têm de não quererem se acostumar, de fazerem de tudo para não serem como os pais, acomodados. Mas sabe qual é o nome disso? Rebeldia. Para os já infinitamente mais vividos que os filhos isso é uma perturbação, um mal que nada nada é necessário, pelo contrário.
Para os pais e para mim, é apenas uma fase. Fase boa para os filhos e de sofrimento para os pais. Uma fase onde não só o "não querer ser acomodado" toma a frente, mas também os ideais. Ideais estes que por muitas vezes, como regra, acaba se perdendo no decorrer da vida, já que você cresce. E ai dos tipos de adultos que mesmo adultos ainda não se acostumaram a acostumar.
Eu prefiro mesmo ser "essa metamorfose ambulante", mas sabe como é, a idade vai chegando, vamos conhecendo o mundo, e temos que ser assim, temos que "ter aquela velha opinião formada sobre tudo"....
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Merda de comodismo, como posso com isso!