Vida depois da morte? Morte depois da vida? Há
quem dera se houvesse um aparelho, ou algo parecido, para nos mostrar como é
depois, depois de tanta vida, depois de tanto falso moralismo. Mas talvez não
fosse tão bom alcançarmos essa “lenda utópica”, já que esse é o mistério da
morte. E vai saber se não teria o mesmo efeito de uma rosa de Hiroshima...
Impressionante como que mesmo vivos nos
importamos tanto com a morte e com o velho enquanto estamos moço. Tentamos
romper com tudo, vamos por alguma força maior, até o primeiro andar buscar
saber quem somos, e se alguém numa curva te convidar, aaah! Você vai lá.
Vamos um pouco mais além, subimos ate o sétimo
andar, e quando o sol bate na janela do quarto você percebe que tudo o que
disseram era mentira, que harmonia não existe, que equilíbrio é só aquele
estudado pela área de exatas mesmo. Que aquele velho moço não estava desequilibrado,
apenas além do seu tempo.
Você ainda no sétimo andar hesita e decide
pensar um pouco. Pensar sobre tudo o que já pensou e o que ainda não pensou. Pensa
então nos filósofos suicidas e nos agricultores famintos desaparecendo embaixo
dos arquivos. Fica então com raiva, raiva porque desde pequeno come lixo
comercial e industrial e lembra que é o filho da revolução e que chegou a sua
vez, vai cuspir de volta o lixo em cima de todos os “enlatados”. Lembra-se de
todos os “xanéu nº 5”. Fica enfurecido, mas acalma-se e passa para outra fase.
Pensa sobre o amor, e como ele é importante,
lembra-se da musica: “ainda que eu falasse /a língua dos homens/ e falasse a
língua os anjos/ sem amor, eu nada seria...”. E sim, concorda plenamente, dessa
vez sem hesitar. Mas o seu lado negativo se sobressalta e lembra que o amor é
como a soma de duas metades, mas assim como vem ele vai. E quando isso
acontece, você chora café e ela leite.
Você ali no sétimo andar tenta subir mais, mas
a força acabou e decide ficar ali mesmo, amargando suas dores e criando uma
atmosfera de intenso desequilíbrio e desarmonia.
Sabe que precisa tomar alguma atitude, fazer
algo, mas não da conta, fica ali, estático, sem pensamentos, realmente como uma
planta, apenas irradiando calor. Com um sentimento grandioso de sair correndo
dali, você realmente não queria ficar.
Ouve então a voz daquela força que te levou
antes ao primeiro andar: “Deus sabe, o que eu quis foi te proteger do perigo
maior que é você, e foi difícil te levar aquele lugar, você não queria ficar”.
Fica ali na janela, pensa “e se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu
fiz, quem então agora eu seria?”
Agora já foi. A imagem que vai ficar é do teu
olhar ao ver a flor, o seu amor, você ali na janela precisando só de um pequeno
empurrão pra ir ao encontro dela, então você começa a chorar, chorar o leite e
ela o café. Você sorri e vai... Joga-se, sem se preocupar com o resto.
Chegando mais perto da sua flor escuta
novamente a voz, agora dizendo “eu sou a morte e esse é só o começo do fim da
sua vida, deixa chegar o sonho, preparei a avenida pra que você e sua flor
pudessem passar, então agora vai”. Você lembra então de Pierrot, e fica
esperançoso em encontrá-lo. Mas antes de ficar ali na calçada com sua flor,
canta “Adeus você, que eu hoje vou pro lado de lá. Eu to levando tudo de mim,
que é pra não ter razão pra chorar”.
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