A única forma de livrar-se dos pesadelos se foi. Tentou de
tudo. Está tudo dentro da sua cabeça. As teorias, as imagens, as cenas, as
falas, os passos, os olhares, tudo; mas se quer da conta de transpor nessa
merda de papel virtual, muito menos na crua e fria celulose.
O que acontece agora? O que acontece quando não se joga os
demônios pra fora? Vive-se com eles? Acostumamos? Afundamos com eles?
Elevamo-nos com eles?
Tornamo-nos como eles. Duros. Frios. Chateados. Raivosos.
Choramingando pelos cantos, naquele que era o nosso mundinho perfeito. Tomamos
merdas de pílulas e mais pílulas e pílulas. E ainda somos as mesmas merdas
raivosas e insanas.
Saia daí garota, saia agora. AGORA. Corra, corra, corra.
Eu sei. Nenhuma pílula te trará de volta. Nenhuma porra de
pílula te salvará de si mesma. É tudo mentira; as nuvens não são feitas de
algodão, garota.
Tá ouvindo isso? Está? É o choro, garoto. São os gritos,
garoto.
Eu posso vê-la caindo, gritando, chorando. Olhando nos meus olhos,
sangrando como uma garotinha que perde seu doce. Tão crua. Tão pura.
Ela está aqui, amigos. Comigo. Sangrando. Vocês estão tão
longe. Tão...longe.
Ela está aqui, garotos. Comigo. Sangrando. Está esperando a
queda terminar, e quando terminar, vai sangrar mais ainda.
Ela está aqui, família. Comigo. Sangrando na porra de uma
calçada suja e fedida, onde milhares de pessoas passam e passarão.
Ela ainda está sangrando. Em vocês, ela ainda está
sangrando.
“Pai, as coisas ficam muito boas quando a gente esquece, mas
eu não esqueci o que você fez comigo. Não esqueci a sua covardia. Agora você
vai me ouvir. Tô te mostrando a porta da rua pra você sair sem eu te bater...”
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