Está calor, eu realmente necessitava de um novo Abraão. Que chamasse outro alguém e me refrescasse a língua com pelo menos a ponta do dedo molhado em água, pois em chamas eu sou atormentado.
Sim, eu sinto o cheiro dele, sua respiração ofegante, seu cheiro insalubre que fica impregnado aqui. Não posso mais, acho que não agüento tanto ser mão, tanto “faz, não faz”. Por que eles fazem isso comigo? Por que não me deixam viver o que eu quero? Eu já experimentei, já fui colonizado, civilizado e humanizado é o que mais fui, mas não entendo como isso foi possível. Não tive vontades? Não tive força pra enfrentar a tal sociedade? Ou as minhas vontades -desejos - que são dos outros, que foram transfiguradas pra eles ou simplesmente limitadas por eles?
Sentia medo do olhar para eles, de como mostravam suas garras, seus dentes, de como os olhares iriam me validar. Como seria agora? Quais seriam as restrições, as limitações impostas por eles? Qual seria o padrão de hoje? Eram tantas perguntas e nenhuma resposta que se qualificasse.
A angustia foi tanta, que os “Insalubres” me deram a oportunidade de ficar sem eles, durante sete dias. Como me sentia? Sentia-me nas nuvens, como se eu pudesse fazer tudo o que gostaria. Então começou.
No principio começou o desapego às regras e aos moldes da sociedade. Houve tarde e manhã, o primeiro dia.
Desapegando-me, pela metade, das regras e princípios, tentei conviver com os “antigos eu”. Houve tarde e manhã, o segundo dia.
Não tendo mais regras e princípios, tentei reforçar a amizade com os “antigos eu”. Houve tarde e manhã, o terceiro dia.
Sem regras e princípios, fui expulso da sociedade dos “antigos eu”. Mesmo sem entender o porque de me chamarem de louco fui, e fui feliz. Houve tarde e manhã, o quarto dia.
Regras e princípios abolidos, sem os “antigos eu”, denominado como louco e agora infeliz e com um desejo enorme de voltar ser que eu era, houve tarde e manhã, o quinto dia.
Fiz um apelo aos “insalubres”, que me readmitissem em sua ordem, em seu sistema. As coisas estavam piores do que antes. Estava sem o meu alterego, sozinho, louco, sem limites, sem consciência, sem juízo. Os “Insalubres” me buscaram, me deram apoio, conselhos, e claro, ordens e limites a serem seguidos. Voltei então ao “meu eu” necessário. Houve tarde e manhã, o sexto dia.
Cheguei ao lar dos “Insalubres” e dos “antigos eu”. Terminou então no dia sétimo a liberdade concedida pelos “Insalubres”. Descansei então durante todo o dia e o santifiquei, porque foi nesse dia que percebi a importância do outro pra formação da minha identidade. Na verdade o outro é a minha salvação, salvação pra não me tornar uma Amala ou Kamala.
Não compreendia o porque de os outros terem de ser os meus juizes, o meu espelho, o porque de ficarem dentro de mim. Mesmo que eu não os quisesse, eles estavam ali, sempre mostrando suas garras e com aquela respiração ofegante. Mas hoje está tudo bem mais claro, mais norteado.
Não, não podemos matar o cachorro dentro de nós, é ele quem nos deixa nos eixos, é ele quem nos diz as coisas que sabemos que temos que fazer, mas não fazemos. Mesmo não gostando deles, eles são sim salubres, mesmo que em parte.
Mesmo sendo os outros o inferno, é preciso dele e saber conviver com ele. Eu, que já não o tive por sete dias, vi tudo se desconfigurar, fui como uma abelha em um enorme pote de mel, me lambuzei com a liberdade dada, tudo porque não tinha o outro.
E mesmo sendo o outro a causa do seu sofrimento, ele é um sofrimento necessário, e um sofrimento que viverei eternamente com ele, aqui no inferno.
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