Estávamos no Hospital de Olhos e ela
passou mal. Tinha feito quatro pontes de safena e todas tinham entupido. Seu
coração bom funcionava cinqüenta por cento.
Passado algum tempo, ela acordou. Sorriu. Disse que não era só pelo fato
de ter ficado muito em pé que seu coração não agüentou.
De repente, disse que queria vomitar, peguei alguns papeis e dei a ela.
Era tarde demais. Olhou-me com um sorriso maior do que o do início. Seus olhos?
Eram caramelos e estavam vidrados. Seu pescoço fazia uma parábola com a maca.
Deu um “ronco”. Um “ronco” bem característico de algo que eu não queria acreditar.
“Entuba, entuba! Massagem cardíaca! Adrenalina. Não, não, direto no tubo
do soro! Massagem! Ela é diabética. Vamos, vamos, ela precisa reagir!”
-Moça? Moça?
-Sim.
-Precisamos saber quem é o
cardiologista dela.
-Eu...Eu sei quem é.
Ricardo o nome dele. Mas... – franzi a testa.
Ela saiu, me deixou ali. Mais parecia que a Terceira Lei de Newton não
era verdadeira. Todos aqueles procedimentos nunca sairão da minha mente.
Depois de uma hora e meia de tentativas, veio a confirmação médica de um
óbito já atestado por todos a mais ou menos seis meses.
Um olhando para o outro. Não entendiam nada. Ou não queriam acreditar
naquilo.
Depois de horas, ela estava ali, no interior de Goiânia, na sua casa.
Mais precisamente na sala. Ah...Aquela sala. Muitas memórias ressurgiram ali
com ela no caixão. Parecendo mais uma Bela Adormecida.
Aquela sala se transformou. Coisas que já mais tinha visto e estavam ali
sempre, saltaram aos meus olhos. Na parede na minha frente e atrás do caixão,
estava a foto mais linda dela. A única que deixara tirar depois de ter
engordado alguns quilos. E no meio do velório dei um tímido e distante sorriso.
Era preciso reagir. E rápido. O senhor já ia fechar o caixão. A coragem
surgiu em meus pés e me fez ir mais perto do caixão. A coragem surgiu em minha
mão e tirei minha mãe dali, que era a sua irmã. No ultimo momento, toquei seu
rosto maquiado. Estava diferente. Como? Isso não sei. Talvez o formol? Talvez o
modo como eu a via agora? Não sei.
Olhei para a janela. O sol já vinha. E quando ele bateu na janela da
sala, iluminando aquele lugar insalubre, ela se foi. Abraçada com minhas duas
mães, uma lagrima caiu. Já era o bastante.
Saímos como em peregrinação em direção ao cemitério. Cidade pequena,
todos conhecem a todos. O calor do sol tomou conta de todos. As lagrimas
evaporavam rapidamente. O suor brotava das mãos entrelaçadas. Do corpo brotava
o cansaço, desanimo. Os passos eram mais lentos, como se o tempo fosse ficar
mais lento, e mais lento e mais lento. Até parar.
Chegado no cemitério a vala estava ali, aberta ao próximo corpo. E o
próximo foi o meu mais próximo. Ela não pôde ficar.
-Acorda filha. Filha?!
-Han?! Mãe?
-Você já está atrasada pra
aula.
Às treze horas fui ao Hospital de Olhos. E tudo parecia começar de novo.
Mas agora com uma pequena diferença. Era real.
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